A ficção me encanta. Fernão será lindo nos meus braços. A paixão não nos dilacerará nem que por nenhum segundo depois de amanhã. A vista pela janela vai ficar fenomenal. Ainda que haja um incerto fluxo de consciência. Seremos todos vitoriosos. Um a um. Sem que ninguém se perca. Porque fomos feitos pra acreditar em milagres, não fomos? E se fomos. Pela minha porta. Não há sequer um dia que não chova. Sobre todas as flores. E esse clima faz com que eu me sinta docemente vingado. Tomando martini na garrafa. Mesmo que existam os momentos em plano-sequência. Gotas e gotas. Ouvindo aquele álbum de 1973. Para que eles todos nos percebam. E se contenham nas catarses inúteis. Se eu te contasse qual era a faixa do disco, seria óbvio demais. Já te foram apontadas as dicas. Sem trancas nas portas. A ficção não deixa. Apesar dos rastros dramatúrgicos. Questionamentos sem resposta. Ela quer que você se envolva. Até o pescoço. Não se apavore. Desvende o enigma. Aproveite que Aristóteles está morto. Aposte seu favorito num prêmio. Algo tipo o Oscar. Sinta na boca o gostinho azedo do que poderia ser. Isso ou isso. Até aquilo, se os mortos resolvessem voltar nessa estória. Se estivéssemos falando sobre a verdade. Que não existe. Até ser dissecada a sinopse mal feita. Mas que. Enfim. Você sabe. E eu detesto.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
domingo, 29 de abril de 2012
Dispepsia
Sim. Eu estou com minha cabeça quebrada num jogo de quebra-cabeça. Similarmente. Fervilhando. E se eu reclamo, é de dor. Porque o jogo tem muito a ver, não-obviamente, com amar e tudo o que este verbo, transformado em carne, implica. Ou seja, na prática: experimentando essa solidão, essa falta, essa saudade fodida, essas contusões sentimentais. Por onde transitar?, eu me pergunto. Quais ligações eu cruzo, o que dizer, como gritar por alguém? E arriscar beijos. E arriscar frases. E arriscar curas ou ainda mais enleios perigosos e curvas na contra mão onde eu poderia morrer. Como escapar do meu jogo que eu mesmo criei se, uma vez nele, eu não poderia fugir jamais? Como entendê-lo? Como traçar uma meta? Ou como arquitetar um fim? Eu suspeito que eu não sei. Não.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
Posso
Eu poderia escrever outras tantas de amor mas meu corpo não deixa. Eu poderia ter mergulhado e ter bebido da tua saliva ao invés de ficar na beira tocando as ondas com os pés. E ter optado por uma respiração leve ao invés de ofegante e pesada e ter te perguntando sobre mim em algum momento da manhã. E ter buscado mais do teu furor diabólico e ter cuidado mais da tua paz de santo. E não ter medido minha palavra. E ter dito com a palavra o que tem por trás dos meus olhos. E ao te perceber tão suscetível naquele instante ter notado que ao entrar nos teus caminhos eu poderia me perder. Mas que mesmo assim eu poderia ter te roubado um. E que eu poderia ter te roubado tantos. E que ao não ter resposta alguma sobre isso saber que amanhã eu posso te roubar um beijo.
Preciso do bheijo fantasma
Vou me render à cama, ao silêncio, lençol e ventilador. Penso em dois braços. Penso em coisas laranjas, em limão, sal e tequila. Eu me sinto em estado febril. Tremo de frio ansioso. Tramo coisas azuis. Canto. Estou desde a meia-noite. Hoje é sexta. Os óculos pesam. Durmo com o celular perto. Preciso mesmo descansar. Não queria ter que cumprir obrigações. Estou sufocando meu travesseiro. Grunhido palavrões. Quem sabe eu repita um mantra. Solene digo, como eu disse quando tinha 15 anos de idade: "preciso do bheijo fantasma". Depois eu posso sair. Provavelmente pela porta de trás. Por isso ponho pra tocar a droga do despertador. Nove e meia, baby. Embora eu saiba que só levante por volta de treze, depois de muito crer em amor.
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
3.46
O tempo nos envelhece. A morte nos antecipa. A saudade nos aperta. As coisas são. A eternidade não existe. As carnes apodrecem. As flores murcham. Os corações, assim como os relógios, pifam. E o amor consome tudo.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Arrebata-me
E de repente eu não estou lá. Eu não me enquadro – e nem me surpreendo. Eu não me encontro. Não faço parte e nem tomo. Eu não acho. Saída. Solução. Espaço. De súbito, tomado pelo ar, em menos de minuto, sinto meu corpo flutuante, pés dormentes, cabeça distante, olhar nebuloso. Onde? Quem são essas pessoas? Antipatizo fácil. Desavergonhadamente. O que é o que é: um ponto clarificado no meio da multidão? Tranco os dentes. Invento disfarce pros meus soluços. Choro cantando. Engulo lágrimas pelos olhos. Chumbo-me. Enegreço. Me cubro com cascas de ovos. E só depois, ao chegar em casa, posso desatar – tão meus – os meus nós. É de repente. Que trincam as lentes dos meus óculos. Só então eu entendo que faz todo sentido do mundo eu ser míope.
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Ode ao grande Pássaro Azul do Pedro Gabriel infante
Um pássaro grande azul canta perto aqui bem longe. Estou por lá no meio do campo das flores, bem junto pertinho ao menino que dorme marfim. Sinto pedrinhas em baixo dos pés. Um vento seco alaranjado de luz povoa todo esse espaço. As flores dançam. As nuvens passam.
Carrego logo embaixo dos olhos duas grandes borras de café. Minhas lágrimas são escuras e requentadas, descem líquidas, não se instalam, mas descem, descem, molham o chão.
Tenho febre. Canto elegias. Rezo ao Jesus Menino. Arvora sobre mim alguns frutos, mas estão secos. Mas estou tão triste. Minhas folhas não me cobrem nem me protegem do frio. O sol é quente.
Mas rezo. À Mãezinha de Deus, um som de violino, bem fino, talvez na grande garganta do pássaro azul. Rezo, porque o menino tem os pés descalços e as mãos branquinhas de cera. E seus lábios são leporinos, cortados, têm o peso das palavras dos anjos. Ele é pequenino.
Rezo cantando, junto ao pássaro, um som de violino.
Toco meus dedos em seus dedinhos vazios e os lábios cortados, leporinos, incompreensíveis. Ali mesmo, no meio do campo das flores, têm muitas e é impossível dizer: têm róseas amarelas brancas azuis amarelas de novo. Tantas que é impossível dizer cada qual tem sua cor.
Um pássaro grande azul canta perto aqui bem longe. E a sua flor é também azul, mas marinho e marrom. Toco meus dedos em seus dedinhos, toco em seus lábios leporinos que carregam uma cruz.
Rezo um canto, muito bem fino. O menino dorme. Ele é azul, marinho e marrom.
Cada flor tem seu pássaro. Aquele grande azul embala a flor-menino.
Toco em seus dedinhos. Meus dedos em seus olhinhos.
Seus lábios são leporinos, cortados, têm o peso das palavras dos anjos.
Percebo o quão miúdo se pode ser, diante do pássaro grande de garganta e canto azul.
Diante do bebê de marfim em seu caixãozinho, percebo o quão miúdo se pode ser.
***
Eu sou tão pequenino.
Quando eu morrer, quero também um pássaro de uma cor minha por lá no meio do campo das flores todas as cores. Percebo o quão melódio será o canto do meu, que será vermelho.
***
Um pássaro grande vermelho canta longe aqui bem perto.
Minhas lágrimas escuras descem.
Tenho febre.
O menino-azul-marinho-marrom repousa embalado.
O sol é quente.
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