segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Da felicidade que as vacas têm

– Vacas são felizes?

– São.

– Elas parecem ser tão calmas...

– É, parecem...

– Não, não parecem. Elas são calmas de verdade.

– É...

– A senhora é feliz?!

– Claro que sou.

– Não parece.

– Não pareço?

– Não sei. Sua calma não parece calma de verdade.

– E existe calma de verdade e calma de mentira?

– Não sei.

– ...

– Acho que existe.

– ...

– Mamãe.

– Oi.

– Existe vaca em todo canto do mundo todo?

– Não sei, meu filho. Acho que sim... Talvez. Não sei.

– Elas têm medo de morrer?

– Não sei. Devem ter.

– E por que elas têm tanta calma?

– Não sei...

– ...

– O que foi?

– Por que a gente come vaca, mamãe?

– Também não sei, meu bem.

– E por que a gente bebe leite?

– Eu não sei, meu filho! Não sei! A gente bebe leite porque mandam.

– Quem manda?

– Ninguém... Na verdade a gente come carne e toma leite pra ficar forte. Pronto!

– A senhora é forte?

– ...

– Acho que elas são mais fortes, mamãe. Porque elas são calmas e têm medo de morrer.

– E pessoas fortes têm medo de morrer, por acaso?

– Acho que sim.

– E são calmas?

– São.

– E se a calma delas for de mentira?

– Mas não é.

– Como você sabe?

– Porque vacas não mentem. Bicho nenhum mente.

– E como é que você sabe disso?

– Porque elas são felizes.

– ...

– E só quem mente é as pessoas que têm medo de vida.

– Medo de vida?

– A senhora tem medo?

– O que é medo de vida?

– A senhora tem medo ou não?

– Tenho. Claro que tenho.

– Então a senhora não é feliz?

– Sou!

– Então é medo de morte, mamãe?!

– Não, meu filho. É medo de outras coisas.

– Então a senhora está mentindo!

– Não estou mentindo. Por que sua mãe iria mentir pra você?

– É medo de vida?

– Também não.

– A senhora está mentindo, sim!

– Não. Não estou, não.

– E se está mentindo é porque não é feliz de verdade!

– Claro que não!

– A senhora tem medo de vida. Por isso mente.

– Eu não minto nunca! Eu sou sua mãe.

– E também nem é calma de verdade. É fraca!

– Você não fale assim comigo!

– ...

– Ouviu bem?!

– Desculpa.

– ...

– Mamãe.

– Oi.

– Por que a senhora falou gritando então?

– ...

– A senhora finge?

– O quê?!

– É que a senhora é alegre por fora, mas parece ser triste no coração.

– Isso não existe...

– Existe. A senhora parece forte, mas eu sei que não é.

– Acho que é melhor a gente voltar pro sítio, está ficando escuro, as vacas querem dormir.

– Mamãe?!

– Fala.

– A senhora tem medo de vida?

– De novo esse assunto?

– Tem ou não tem?

– E o que é ter medo de vida?

– Eu não sei.

– Então eu também não sei.

– Sabe. A senhora é adulta.

– E o que é que tem?

– Adulto tem medo de vida.

– E você tem medo de escuro!

– Mas ter medo de escuro é medo de morte.

– ...

– Medo de morte é diferente.

– O que é medo de morte?

– É medo de morrer.

– E medo de vida?

– É medo de ter calma.

– Ninguém tem medo de ter calma, meu filho.

– Tem medo, sim! A senhora parece que tem!

– Eu pareço ou eu tenho?

– Não sei dizer, a senhora mente muito.

– Eu não minto!

– ...

– Então... Quer dizer que as vacas são infelizes?

– Não.

– Mas elas não têm medo?

– Mas é de morte! E de morte é diferente!

– Claro que não.

– Claro que é!

– Diferente como?

– Medo de morte é quem não tem medo de vida.

– E medo de vida, o que é?

– É quem não tem medo de morrer.

– ...

– Quem tem medo de morte é porque deve ser feliz.

– Como você sabe?

– Aprendi com as vacas...

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Dança profana



Tive fome de dança, tive sede de vida. Quis comer das maravilhas e destruir todas as desgraças. Corri pelos ares, ornei-me em movimentos – e a poeira subiu para além da sola dos meus pés.

O ar se encheu de partículas que se tornaram estrelas! O fosco se fez brilho e as pedras se tornaram almas. Minhas pernas se abriram, minha cabeça se esvaziou de mim e eu fui coberto pelo som do mar. Meus olhos arderam com chamas secas e o vento me invadiu o litoral, o suor do meu peito. Entre uma onda e outra, pelas candeias e cantos da Virgem da Glória, minha boca salivava e eu soltava gritos como os gritos de “evoé!”. Não sabia nem saber o que falar – apenas gritava palavras redondas e invocações incoerentes, sílabas que enroscassem minha língua. Meus lábios sorriam. As narinas arquejavam pelo sopro profano e os dentes trincavam no ar impuro com vontade de tudo. Minha pele agitava os parangolés de Oiticica nos tecidos de Pamplona – e eu excitava em mim a certeza de que meu sangue era vermelho.

Meus braços se partiram e me levaram a dançar. Desdobrei-me para fora no auge do arrebatamento – fui consumido em mim. Fiz-me em minha libido e no silêncio da liberdade recriei a existência. Ultrapassei as linhas do meu corpo – e me tornei também uma estrela num êxtase de carne. Bebi a vida.


sábado, 1 de agosto de 2009

Amor de pudim

(para Letícia Trugílio)

Estava completamente só, sem saber de mais nada. Não havia ninguém que a censurasse por estar sentada ali, de pernas abertas. Preferia pensar sem saber no que estava pensando e olhava fixamente para o Cristo na parede da cozinha. Sua blusa velha estava encharcada de suor na gola e sua calcinha bege e esfolada, mas meio rosa por causa de desbote, cheirava a coisa usada. Os fantasmas, aos poucos, encarnavam em sua cabeça, fazendo-a pensar sobre um tal de um amor acontecido, enquanto tudo se inundava num copo de Coca-Cola com gelos de cubos falsos.

É que sei lá há quanto, aceitou um pedido de namoro. Disse um “sim” seguido de um beijo e fez de uma simples pergunta uma resposta positiva para si. Dedicou-se a ele, fez-se a ele, deu o que era ela a ele – mas só até onde pôde. E eles se gostavam, sim. Mas e o tempo passou e agora ela estava sentada ali, sozinha por preferir estar só. As coisas tinham perdido seu devido brilho e não havia mais valor. As risadas dele agora pareciam irritar ou invés de fazer rir também. Cansava-se só de imaginar ter que vê-lo sorrir. Aquela alegria que era só dele, a cada dia ficava mais dramática, mais trágica ou até cômica aos que, de fora, davam-se ao luxo ou ao direito de gargalhar, como uma platéia de uma irônica comédia de costumes.

Ele era bom demais, doce demais, amável demais. Não discordava nunca, era sempre disposto, sempre entregue – e esse era o problema de tudo. Não havia brigas ou cortes, nem cicatrizes de machados e facas. Não havia nada. Tudo estava ali, esperando traças. Era como um pudim molenga e sem doce, desonerando apenas por dentro, feito com ovos gorados e coberto por um mel queimado e meio amargo. Já estava virando uma peça de museu intacta – e não havia motivo para destruir uma obra tão bela aos mundos alheios. Se houvesse um rompimento – Deus sabe – a culpa seria dada imediatamente por não haver motivos aparentes. Seria injustiça, seria maldade com ele que, justamente, era tão bom.

Ela decidiu então ficar como uma múmia, apodrecida apenas por dentro dos linhos. Assim era melhor. Não haveria a culpa por tê-lo largado, não haveria vítimas nem fraturas expostas, e os carrascos não teriam que sujar as mãos de sangue. Era mais bonito também ser um túmulo glorioso. Um sarcófago que, por fora, era ouro ornado por pedrarias e, por dentro, era um cadáver dissecado, uma carne podre sendo comida entre lençóis empoeirados. Lençóis sem graça, sem vida. Como tudo havia se tornado: trivial demais – doce como pó de café solúvel na língua. Bege como a calcinha.

domingo, 26 de julho de 2009

Quebra-corpo

Meus pedaços estão desmontados. Agora sou vários – sou linhas e traços, líquidos, durezas num curto espaço. Sou um monte de coisas soltas; sou tantos e tão muitos, que são muito menores perante a imensidão de outros corpos que ainda não foram quebrados.

Minhas ilusões vazaram na languidez do meu escoamento. Virei partículas, tornei-me cacos.

Somos só eu: únicos na imensidão de um infinito – sem sonho, ásperos como grãos de Terra em terra.

domingo, 19 de julho de 2009

Ritmo de festa



Domingo é o pior dia. Tudo fica lento, as horas não passam. As ogivas são sem vida, suas cores são mortas. E é tudo quente demais. E é sem vento. Na TV, as mulheres dançam com sorrisos comprados – os braços, o improviso, as pernas cruzadas, a jogada de cabelo, o salto prateado, os brincos em metros e os peitos siliconados quase pulando pra fora do figurino cafona de lantejoulas lilases e pedrarias vermelhas. As músicas são as piores possíveis. O futebol pára a ruas e os patrocinadores compram as máquinas – enquanto os homens tomam cerveja e as mulheres falam de tratamento capilar inteligente. Mas o tédio – o tédio é sempre o mesmo – é o mesmo de todas as semanas.

Tudo tenta ser fantástico, em ritmo de festa, mas nada me agrada muito. Não acredito no descanso de Deus e acho que a ressurreição de Cristo foi em outro dia. Nem os babilônicos me excitam muito com o seu Shamash. Nem os churrascos de família – acho tudo falsidade. Nem as carnes vermelhas. Nem a República Dominicana. Nem as festas pagãs.

As pessoas são tomadas por uma alegria sem graça, com gosto de refrigerante com cheiro de barata. É uma alegria dominical, absurda e sem propósito. Uma alegria de gelatina em pó, fingida e sem escapatória, onde a família feliz é centro de um palco italiano, onde o fingimento vive, onde a ostentação é o consumo e os carrinhos de compra estão cheios, onde os automóveis dizem alguma coisa e onde os apartamentos têm mais vida. É onde a pizza dá o verdadeiro sentido do dia. É quando se come algum sabor após uma hóstia sem sal de uma missa demorada, onde o pai nosso é só de alguns e a mentira é agora e na hora de nossa morte, amém.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Aos que escrevem


Nosso sangue caiu sobre o papel, mas continuamos vivos – agora mais que nunca! Porque essa é a única certeza de que a gente não morre tão cedo. A única certeza de que a gente viverá por uma breve eternidade.

domingo, 5 de julho de 2009

O beijo ou Abril em primavera

A mobilidade da luz percorreu toda a paisagem – quebrou os vazios de uma imagem de vítreos ossos e transformou tudo em carne. Foi por entre as janelas de um prédio, foi por dentro do mundo. Passou por colunas e colunas, pelas colunas, entre espinhas e máquinas, por pedras e costumes. Tudo havia sido rasgado. Havia mudado e não havia mais espaço. Tinha veracidade nas bocas, havia o desejo de ser o que nunca tinha sido – porque não podia ter sido antes, porque não havia sido dada a vontade de viver a intensidade dos mares.

Mas a transformação foi feita. Foi – traçou um corte na previsibilidade do tempo e das coisas. As feridas abertas foram lambidas, as peles fechadas foram cortadas. Eram dores densas, eram cores em toques. Era tudo tão bom! Havia uma coragem de se arriscar – contra o medo, contra tudo e contra todos, porque agora tudo era uma verdade de verdade, ao contrário de antes. Parecia perigoso, mas não: era um grito de libertação (e não mais um segredo).

Tudo fazia parte de um momento – os suspiros, os olhos ardentes, as flores vermelhas de sangue e rosas de amor – tudo era parte de uma hora que jamais seria cicatrizada. Era um rito de passagem, sim. Era a aurora, o desabrochar do que parecia inanimado. Era um canto que, ao mesmo tempo, sendo turbulento, era suave. Era uma varredura sobre o pó de uma sobra escura. Era a luz, era um grito de sol – o dia; o sabor entre os homens. Era o beijo, eram dois. Era a primeira vez.

A liberdade, amor – a que sonhaste!