domingo, 5 de julho de 2009

O beijo ou Abril em primavera

A mobilidade da luz percorreu toda a paisagem – quebrou os vazios de uma imagem de vítreos ossos e transformou tudo em carne. Foi por entre as janelas de um prédio, foi por dentro do mundo. Passou por colunas e colunas, pelas colunas, entre espinhas e máquinas, por pedras e costumes. Tudo havia sido rasgado. Havia mudado e não havia mais espaço. Tinha veracidade nas bocas, havia o desejo de ser o que nunca tinha sido – porque não podia ter sido antes, porque não havia sido dada a vontade de viver a intensidade dos mares.

Mas a transformação foi feita. Foi – traçou um corte na previsibilidade do tempo e das coisas. As feridas abertas foram lambidas, as peles fechadas foram cortadas. Eram dores densas, eram cores em toques. Era tudo tão bom! Havia uma coragem de se arriscar – contra o medo, contra tudo e contra todos, porque agora tudo era uma verdade de verdade, ao contrário de antes. Parecia perigoso, mas não: era um grito de libertação (e não mais um segredo).

Tudo fazia parte de um momento – os suspiros, os olhos ardentes, as flores vermelhas de sangue e rosas de amor – tudo era parte de uma hora que jamais seria cicatrizada. Era um rito de passagem, sim. Era a aurora, o desabrochar do que parecia inanimado. Era um canto que, ao mesmo tempo, sendo turbulento, era suave. Era uma varredura sobre o pó de uma sobra escura. Era a luz, era um grito de sol – o dia; o sabor entre os homens. Era o beijo, eram dois. Era a primeira vez.

A liberdade, amor – a que sonhaste!

5 comentários:

  1. A surpresa, a voracidade, a sutileza da primeira vez.
    Daquele novo que vem se apresentar assim, já estando, já conhecendo, já sendo.
    Pede licença já invadindo!
    Lindo!

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  2. Olá Honório! Me pergunto às vezes como as pessoas vão parar no Poesia Torta, mas vendo Gato Preto aqui em cima, acho q já descobri como vc chegou até a minha humilde casa. :) Venho retribuir a visita e encontro a sua sutileza e sua devoção aos amigos, encontro Marlene Dietrich (!!!) e vc através do espelho. Dada a qualidade da sua literatura, é um afago no meu ego saber que vc gostou da minha poesia. Convidado a voltar sempre que tiver vontade, e ficar pelo tempo que quiser.

    Beijo carinhoso!

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  4. Essas coisas as vezes nos enganam e as vezes nos estimulam a seguir adiante. Mas, em fim, é tão bom ter a oportunidade de viver tais situações como essa ^^

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  5. sempre passo um olho tão rasante nos textos alheios (principalmente os de mais de um parágrafo). Pressa, preguiça, anisedade e absortamento diante das milhares de coisas pra se fazer e conhecer nesse mundo. Mas nesse resolvi não fazer uma leitura superficial e li linha por linha, palavra por palavra. Às vezes precisamos sentir de verdade. E, me impressionou =]
    abraço.

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