domingo, 28 de fevereiro de 2010

Primeira fragilidade

Quando grito, quando bato, quando choro e não me engasgo, eu me descubro e descubro-me para o mundo. Tomo conta de mim e me deixo ser tomado de conta. E descubro, mais uma vez, que minha instabilidade é minha cura, porque, quando explodo, dou meu lixo aos ratos e me torno cada vez mais limpo. E me torno mais forte – mais do que me vejo fraco. Porque é quando eu não peço desculpa que eu me vejo assim: perfeito, dentro do meu defeituoso círculo de imperfeições.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Àquele

Como música por baixo da porta, como um sinal, uma esperança, eu te espero aqui, ansiosamente, do outro lado, com a boca sufocada no travesseiro.

Eu te espero com o tempo. Eu te espero nas minhas fronhas. Eu te espero como um destino que, ao certo ou ao acaso, foi traçado. Te espero através dos dias, aqueles que te desenharam nos meus olhos. Te espero na minha boca. Te espero através do teu nome escrito na minha língua, pra que eu possa te pronunciar quando o sol vai dormir e meu quarto vira uma caixa de cimento frio.

Todos os dias eu te respiro. Todos os dias, desde que os meus pensamentos te inventaram, eu te espero. Eu espero assim, sem certeza – com a certeza de que um dia você chega.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Cinza blue

Minhas lágrimas caem sobre as minhas mãos e eu não tenho ninguém. Só uma xícara de chá ou Coca-Cola, onde as bolhas explodem sem um porquê. Tenho medo de ser só. Tenho medo das paredes. Tenho medo do futuro, medo do azul. Tenho medo do que eu não sei. Tenho medo da minha insegurança.

Foi difícil voltar pra casa – o sol no asfalto, as folhas mortas. Foi difícil subir as minhas escadas – é difícil chegar ao teto. É difícil chorar café amargo. É difícil saber que o trem anda, que alguma coisa existe.

E eu penso em você agora. Eu penso também no outro. Eu penso nas suas palavras, penso em todos. E também penso em todas as palavras que existem. Eu penso que nada existe – eu penso em mim, solto, perdido em algum lugar. Eu penso em mim, deitado sobre um batente, o pouco sol entre os arbustos de uma árvore, o céu meio nublado, meio chuvoso, o chão molhado. Eu penso também em não pensar, prendendo ar pelos pulmões, olhando fixamente pra um ponto.

Talvez Deus me ouvisse. Talvez eu pedisse socorro. Talvez eu quisesse você aqui, do meu lado. Talvez eu não quisesse ninguém.

Eu choro compulsivamente e meu colo está vazio. Eu me escondo no banheiro pra que ninguém veja. Sinto sede de alguma coisa. Não tenho sono, não tenho nada, só a mim. Tenho meus beijos no meu corpo, tenho minhas crises; tenho minhas lágrimas por nada, nem por ninguém.

Eu queria que o mundo morresse e que eu fosse junto – tenho vontade de morrer e tenho medo da morte. Eu queria tudo como um fim sem começo, como um nada, que é simplesmente nada e pronto: tudo um ponto – tudo como o que não é, mas que está lá, parado em algum lugar que não existe, porque nunca foi.

Sinto vontade de matar os filhos que eu não tive.

Sinto vontade de não sentir.

Sinto.

Morro.

Esse é o preço de agora. E parece que são essas as minhas lágrimas.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Segunda oferta

Quero que minhas lágrimas encharquem o chão. Quero que os vidros se quebrem e que as jaulas soltem todas as feras. Quero que brotem as folhas nas palhas secas, quero que os corações amoleçam no sangue fervendo. Quero o chão, quero o céu, quero uma única pátria nossa, quero um movimento. Quero uma palavra, um ato, uma cena, um grito, um sussurro. Quero uma revolução, não quero uma paz acomodada. Quero dar o apoio da minha mão, quero abrigar a vida em meu seio. Quero lamber tua pele. Quero transcender. Quero ser o que eu nasci para ser. Quero ser diferente.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Balão, vermelho

Os espelhos eram só daquela luz – aquela das cinco da tarde – alaranjada, meio amarela, com nuvens róseas no céu, explicando que o tempo não existe. Acordei ainda adormecido, sem saber de onde vinha aquele cheiro de café. As coisas eram tão serenas – o sol das cinco da tarde, as lágrimas nos olhos e a voz do vento como em uma canção dolorosa – que fiquei perdido na lentidão da casa. Uma lentidão pavorosa, com um grito preso dentro. Tão silencioso que não saia som da boca inexistente. Um grito como aquele que ninguém nunca entendeu. Como um grito que os pais nem as cabeças nunca entendem. Como um grito que não abre porta, que não se sente, que não prende, que não move. Como aquele que não age sobre nada por ser feito de nada. Era um grito de boca de balão. Que vomitava ar e só. E em cima dos meus olhos fatigados sob a luz vinda de um céu – um céu próprio das cinco da tarde.

Voltei pra cama sem saber mais do café. Cobri meus olhos – escureci. E dormi vazio, cheio de ar, como que com Deus nos pulmões.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um de dois


– O seu problema, sabe qual é?

– Qual?

– Não sei te explicar.

– Como assim não sabe?

– Não sei, cara. Não sei e pronto. Não sou obrigado a saber.

– E eu sou?!

– Mas é claro que é.

– Não, eu também não sou.

– É! É, sim!

– Não, não sou.

– É!

– Por quê?

– Como assim? Você ainda quer saber o porquê? Não tá na cara?

– Não.

– Como assim, cara? Tá na cara, sim. Bem na tua cara.

– Eu devo ser cego, então.

– Ou burro.

– Não, isso eu não sou.

– Inteligente é que não é.

– Se for pra ser inteligente como você, que sabe tudo sobre tudo, mas não sabe nada de nada...

– Como assim?

– Ah, você também não sabe? Então eu também não sei.

– Por que é que você tem que ser assim, hein?

– Assim como?

– Assim! Do jeito que você é.

– Deve ser porque eu sou eu.

– E eu sou eu, né?

– É. E você é você.

– É.

– E, graças a Deus, eu e você somos diferentes.

– Talvez.

– Talvez?

– Talvez, sim.

– Como assim? Não entendi.

– Você nunca entende.

– Por favor, me explica...

– Não quero.

– Você não acha que nós somos diferentes?

– Acho.

– E por que o teu “talvez”?

– Por causa do “graças a Deus”.

– E você acha que é graças a quem? Ao diabo?

– Só se ele for você.

– Eu não. Você, se for.

– Só se ele for eu ou você, porque Deus não tem nada com isso.

– A não ser que eu seja Deus.

– A não ser que você ou eu seja Deus!

– Mas você não é...

– Muito menos você. Você que não é mesmo.

– E você tá mais pra diabo.

– Eu não tô pra nada. Nem pra Virgem Maria.

– Mas pra Deus se incluiu.

– Não me incluí. Supus.

– Por quê?

– Pra dizer que ninguém tem nada a ver com o que eu ou você é.

– Ninguém?

– Só se outro alguém for eu ou você.

– Deus ou o diabo?

– Ou a Virgem Maria.

– E como é que você sabe?

– O quê?

– Que ninguém tem nada a ver com a gente?

– Eu não sei.

– Não?

– Não... Eu sinto.

– Deu pra ser sensitivo agora também?

– E você? Deu pra bancar o imbecil?

– Não. Não dei pra bancar, não.

– Porque imbecil é o que você é sempre, né?

– Porra, cara... Pára de ser desse jeito.

– Desse jeito como?

– Desse teu jeito, cara. Pára de ser escroto!

– Escroto?

– Não, eu também não sei explicar...

– Não sabe explicar o teu “escroto”?

– Não.

– Deve ser porque nós somos assim, diferentes...

– É... Talvez.

– Talvez?

– Talvez, sim. Talvez, graças a Deus.

– Ou graças a nós.

– De jeito nenhum!

– Como não? Graças a nós, sim!

– Não, não. Graças a mim e graças a você, que somos diferentes.

– Realmente...

– Melhor: graças a você e a mim, que não sabemos da vida um do outro.

– Graças a Deus!

– O quê?

– Que nós não sabemos um do outro.

– Talvez.

– Talvez?

– É. Talvez. Graças a Deus.

– Ou a nós.

– Graças a Deus.

– É... Graças!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Porto das caravelas

(para Felipe Damasceno)

Descobri a palavra certa, a que se encaixa bem na nossa boca. Descobri tua pele da roupa, descobri tua nuca e o teu suor. Descobri um monte de coisa. Descobri a nossa língua, o nosso chão. Descobri teu pescoço e deixei os meus suspiros serem descobertos.

Visitei teus cabelos com meus dedos e tentei descobrir tuas dores. Eram muitas – e eu tentei te curar. Conheci teu tédio e tentei sufocá-lo com um beijo na tua alma. Conheci tua fera e a acalmei com meus braços. E só através de ti, descobri meu porto, descobri meu instinto; descobri uma Nova Granada, o sabor da América.

Descobri meu pensamento e descobri o meu pensamento. E descobri o meu desejo nesse mesmo instante, perdido no meio dos teus monstros, escondido em todos os teus mares.