quarta-feira, 25 de abril de 2012

Posso

Eu poderia escrever outras tantas de amor mas meu corpo não deixa. Eu poderia ter mergulhado e ter bebido da tua saliva ao invés de ficar na beira tocando as ondas com os pés. E ter optado por uma respiração leve ao invés de ofegante e pesada e ter te perguntando sobre mim em algum momento da manhã. E ter buscado mais do teu furor diabólico e ter cuidado mais da tua paz de santo. E não ter medido minha palavra. E ter dito com a palavra o que tem por trás dos meus olhos. E ao te perceber tão suscetível naquele instante ter notado que ao entrar nos teus caminhos eu poderia me perder. Mas que mesmo assim eu poderia ter te roubado um. E que eu poderia ter te roubado tantos. E que ao não ter resposta alguma sobre isso saber que amanhã eu posso te roubar um beijo.


Preciso do bheijo fantasma

Vou me render à cama, ao silêncio, lençol e ventilador. Penso em dois braços. Penso em coisas laranjas, em limão, sal e tequila. Eu me sinto em estado febril. Tremo de frio ansioso. Tramo coisas azuis. Canto. Estou desde a meia-noite. Hoje é sexta. Os óculos pesam. Durmo com o celular perto. Preciso mesmo descansar. Não queria ter que cumprir obrigações. Estou sufocando meu travesseiro. Grunhido palavrões. Quem sabe eu repita um mantra. Solene digo, como eu disse quando tinha 15 anos de idade: "preciso do bheijo fantasma". Depois eu posso sair. Provavelmente pela porta de trás. Por isso ponho pra tocar a droga do despertador. Nove e meia, baby. Embora eu saiba que só levante por volta de treze, depois de muito crer em amor.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

3.46

O tempo nos envelhece. A morte nos antecipa. A saudade nos aperta. As coisas são. A eternidade não existe. As carnes apodrecem. As flores murcham. Os corações, assim como os relógios, pifam. E o amor consome tudo. 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Arrebata-me


E de repente eu não estou lá. Eu não me enquadro – e nem me surpreendo. Eu não me encontro. Não faço parte e nem tomo. Eu não acho. Saída. Solução. Espaço. De súbito, tomado pelo ar, em menos de minuto, sinto meu corpo flutuante, pés dormentes, cabeça distante, olhar nebuloso. Onde? Quem são essas pessoas? Antipatizo fácil. Desavergonhadamente. O que é o que é: um ponto clarificado no meio da multidão? Tranco os dentes. Invento disfarce pros meus soluços. Choro cantando. Engulo lágrimas pelos olhos. Chumbo-me. Enegreço. Me cubro com cascas de ovos. E só depois, ao chegar em casa, posso desatar – tão meus – os meus nós. É de repente. Que trincam as lentes dos meus óculos. Só então eu entendo que faz todo sentido do mundo eu ser míope.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Ode ao grande Pássaro Azul do Pedro Gabriel infante

Um pássaro grande azul canta perto aqui bem longe. Estou por lá no meio do campo das flores, bem junto pertinho ao menino que dorme marfim. Sinto pedrinhas em baixo dos pés. Um vento seco alaranjado de luz povoa todo esse espaço. As flores dançam. As nuvens passam.

Carrego logo embaixo dos olhos duas grandes borras de café. Minhas lágrimas são escuras e requentadas, descem líquidas, não se instalam, mas descem, descem, molham o chão.

Tenho febre. Canto elegias. Rezo ao Jesus Menino. Arvora sobre mim alguns frutos, mas estão secos. Mas estou tão triste. Minhas folhas não me cobrem nem me protegem do frio. O sol é quente.

Mas rezo. À Mãezinha de Deus, um som de violino, bem fino, talvez na grande garganta do pássaro azul. Rezo, porque o menino tem os pés descalços e as mãos branquinhas de cera. E seus lábios são leporinos, cortados, têm o peso das palavras dos anjos. Ele é pequenino.

Rezo cantando, junto ao pássaro, um som de violino.

Toco meus dedos em seus dedinhos vazios e os lábios cortados, leporinos, incompreensíveis. Ali mesmo, no meio do campo das flores, têm muitas e é impossível dizer: têm róseas amarelas brancas azuis amarelas de novo. Tantas que é impossível dizer cada qual tem sua cor.

Um pássaro grande azul canta perto aqui bem longe. E a sua flor é também azul, mas marinho e marrom. Toco meus dedos em seus dedinhos, toco em seus lábios leporinos que carregam uma cruz.

Rezo um canto, muito bem fino. O menino dorme. Ele é azul, marinho e marrom.

Cada flor tem seu pássaro. Aquele grande azul embala a flor-menino.

Toco em seus dedinhos. Meus dedos em seus olhinhos.

Seus lábios são leporinos, cortados, têm o peso das palavras dos anjos.

Percebo o quão miúdo se pode ser, diante do pássaro grande de garganta e canto azul.

Diante do bebê de marfim em seu caixãozinho, percebo o quão miúdo se pode ser.

***

Eu sou tão pequenino.

Quando eu morrer, quero também um pássaro de uma cor minha por lá no meio do campo das flores todas as cores. Percebo o quão melódio será o canto do meu, que será vermelho.

***

Um pássaro grande vermelho canta longe aqui bem perto.

Minhas lágrimas escuras descem.

Tenho febre.

O menino-azul-marinho-marrom repousa embalado.

O sol é quente.


sábado, 20 de agosto de 2011

Babilônia Sabaoth



É esse o enleio da minha salvação:

Eu me escondo, sim, ainda, às vezes ainda durante o dia, onde eu devo mesmo, diante do mundo, realmente tenho mesmo que realmente me esconder e ser apenas dentro. Mas antes.

Mas antes – agora preciso contar sobre o antes – eu era feito apenas de sol e dia. Dias e dias, sóis feitos de sol negro, dias escuros. “Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis”: não pelo lado esquerdo, não pelo lado direito, seguir em frente, seguir em frente, nunca voltar atrás, nunca amar, não ao beijo, não a mim mesmo, não a mim, não para mim, não - o gosto insosso de uma hóstia insossa, mal assada, eu mal cozido, eu mal sabia, eu mal falava, mal podia, Deus! Mas hoje. Mas agora. Mas desde que anoiteceu uma lua clara sobre meus olhos escuros.

Hoje. Falo: hoje sou livre e me desgarrei. À noite, quando estou só e então só posso ser, sou-me. Encontrei os meus! Desgarrei-me do fim e me agarrei às minhas-tuas entranhas, Senhor! “Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona nobis pacem”. A morte nem mais existe, nada importa, tudo importa, tudo, tudo, tudo importa, bate à porta, na minha hora, na minha porta, na minha casa, minha mesa, minha cama, minha gana, minha, minha, meu Deus! Meu, por amor a ti, a mim, em nós, por nós, fugi, fugi-me para além de mim e hoje sou, deixei-me escapar, deixei-me fluir, hoje a noite revigora, dá força às minhas idéias bambas sobre céu e inferno. Vivo santo, meu corpo é vosso, nosso, flutua nas nuvens sem saber de pecado. É santo! “Sanctus, Sanctus, Sanctus, Dominus Deus Sabaoth. Pleni sunt cæli et terra gloria tua. Hosanna in excelsis”.

Cordeiro de Deus, vivo e presente em mim, me dança, me defende, projete, patrocina minha fuga. Os meus estão comigo. Não sou mais como quando eu tive meus catorze anos. Certo que ainda cedo, desisto diante de ontem. Eu me escondo, sim, ainda, às vezes ainda durante o dia, onde eu devo mesmo, diante do mundo, realmente tenho mesmo que realmente me esconder e ser apenas dentro. Mas Deus cá está.

Deus, ao meu lado, me fortifica e me fortalece, me faz dançar, deixa-me livre, me faz livre e me faz dançar, me faz dançar, livremente, uma profana, uma santa, uma santa e santa-profana. É esse o enleio da minha salvação – tomo hóstia, carne e sangue, gosto do gosto, gosto pelo pão bem feito, farto, bem digo, dito, bendigo aos meus, bendito, Sacro Deus.

"Hosanna in excelsis”.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Caiu

Caio caiu.

Caio caiu cedinho, de manhã, antes de cair qualquer coisa.

Depois, Caio caia muito. Caia como os outros cairiam, como eu depois caí.

Como eu também, mais tarde, logo após a primeira queda, cairia como Caio – caio e até cairia de novo –, Caio veio e caiu antes que nós todos pudéssemos ter a chance de cair. Caio foi o primeiro a cair. Antes mesmo de cair a primeira queda. Caio foi o primeiro dos muitos, o primeiro de nós. Com muito, ele caiu.

Caio caiu tanto que se acostumou com a queda. Depois de Caio se acostumar, eu, toda vez que caio, como Caio, também me conformo. E todos os muitos que depois também caíram como Caio caiu, também se acostumaram como Caio e, como Caio, que não achava bom cair, mas que já tinha se acostumado, se conformaram.

Até que em Caio, antes de ele cair de novo, caiu a ficha: ele só caía. E Caio resolveu nunca mais cair, porque seu joelho já estava um tanto machucado. E Caio não levantou. Ficou deitado no chão, para nunca mais ficar em pé e, assim, nunca mais cair.

E Caio nunca mais caiu.

Até cair de novo, não mais no chão – Caio, antes que o sol caísse, cairia em si.