domingo, 16 de fevereiro de 2014

Ao português notívago

Amanhecer é preciso. Navegar é consequência. Viver é tão circunstancial.


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Pois quando eu descobri a miopia eu já estava na saída de emergência

Honório não sabe lidar com o fato de que todos morrem um dia. Honório não sabe lidar com o fato da mortalidade. Honório não sabe lidar com o fato do medo que ele tem de morrer. Honório não sabe lidar com o fato do seu medo. Honório não sabe lidar com o fato da sua solidão. Honório não sabe lidar com o fato do seu medo de ser só. Honório não sabe lidar com o fato da sua dor. Honório não sabe lidar com o fato de que ele está muito triste. E Honório sabe o quanto falar docemente sobre isso, do jeito que ele fala, é irônico. Porque Honório não quer ser doce nesse momento. Honório nem sempre sabe ser doce. Honório não sabe lidar com o fato da falta. Honório não sabe lidar com o fato da falta que certas coisas fazem. Honório tem medo de julgarem tudo como um exagero seu. Honório tem medo de ser extremamente chato. Honório tem medo de que as pessoas deixem ele sozinho nas festas. Honório tem medo de que as pessoas deixem ele sozinho em qualquer lugar. Honório não sabe lidar com o fato de que pessoas deixam pessoas e que isso não é em festa ou em qualquer rua, é na vida. Honório não sabe lidar com o fato de que já fez isso com alguém. Honório tem medo de certas coisas que inventaram na vida. Honório não quer repetir isso. Honório não sabe lidar com o fato de que às vezes não consegue, com o fato de que às vezes não suporta. E o que mais dói no Honório é o fato de ele não ser obrigado a lidar com nada. É o que mais dói. É o que mais dói em Honório.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Existe felicidade na China?

Esse desassossego da solidão, isso tem a ver com o fato de saber que estar só é algo que não tem jeito. Definitivamente. Desde os 15 ou 16 anos que eu me sinto assim e nada melhorou. Cada vez mais tem sido cada vez pior. Algumas coisas doem menos, porque eu estou mesmo bastante calejado, mas outras continuam doendo do mesmo tanto ou pior. Outras coisas doem cada vez mais. Perder a beleza pro amargor da vida, por exemplo, é foda. Isso te salva de mil feridas, mas te afasta das coisas incríveis que só uma certa inocência te faz viver. E saber disso é cruel demais. Que é preciso abdicar da pureza pra não ser machucado. Essa falta de salvação. Quanta maldade isso com a gente. Essa dor de nunca estar completado ou entendido. E de ficar sempre procurando alguma coisa que não vem. E que nunca vai vir. Porque não existe. É uma necessidade que nunca vai ser completada. Nenhum beijo, nenhuma palavra bonita, nada disso nunca vai de fato libertar ninguém. Quando eu descobri que não havia nada que tomasse decisões por mim. E que eu não tinha escolhido viver. E agora ter que lidar com o fato de ter que ter dinheiro pra comer, e que trabalhar é assim, e que isso dignifica o homem, e que é isso o que importa. E que depois disso tudo, saber que nós vamos morrer um dia. Sem garantia de nada. E que amores morrem. E que flores murcham mesmo. E que amigos traem. E que você pode um dia falhar feio com quem você tanto ama. Continua doendo muito. Porque não é possível que seja assim desse jeito sempre. E que seja só assim, só desse jeito sempre. Saber que o mundo tem bilhões de habitantes e todos estão sozinhos. Continua doendo saber que sei lá quantas pessoas que já viveram nesse mundo foram sozinhas do começo até o fim. Continua doendo demais saber que os que virão ainda vão ser do mesmo jeito que nós somos. E continua doendo saber que eu, tendo 21 anos, já sinto o peso da vida desse tamanho assim. Imagine quando eu tiver, sei lá, quando eu tiver por exemplo 60 anos.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Toucinho fumado

Então eles apostaram em algo pra ser feito num único filete. Foi aí que eles cortaram as extremidades. Retiraram o excesso. Permitiram uns três enfeites de nada. E nada mais. Depois, eles pensaram que veriam o grande. O soberbo. Como um sopranino. Um castrati perfeito. E serviram um fermentado de ervas escuras e aguardaram o espetáculo. Com olhos que, insistentemente, esperam por algo. Saíram de dentro de suas camisas claras. Queriam contemplar o belo. O fofo. O magnífico. Que uns até pensaram que seria outra coisa. Mas eles encasquetaram na perfeição. Na salvação. Coisa de outra vida. Experiência mística. Nos campos elísios. Que ruíram feito geleia de amora no pão seco quando, na verdade, eles viram que não. E então perceberam o monstro. De um banquete falido. De café requentado. E chá de hortelã cheio de açúcar cristal. O bisonho. O fantasma. O diabo de voz rouca e sangue talhado na garganta. Com fogo nas tripas. O extraterrestre. O esquimó albino cego virgem de 134 anos nascido na República Dominicana. Com os membros cortados. E puta que pariu. Eles pensaram. Mas não deixaram nada belo. Foi como o contrário. Algo feito algo feito pra não ser sublime. Era o subterrâneo. O desfeito. O desgosto. O terrível. O feio. O horroroso. O torto. O mórbido. O incômodo. Fora de questão. Fora de contexto. Fora de quadrinho. Fora que, de tão fora, estava por fora. Servindo de entrave. Tadinho. Miúdo. Parecia uma tripa de bacon. Que frita, apesar de esquisita, talvez até fosse gostosa. Com bastante condimento por cima. E talvez com um molho de abacaxi com coentro. Mas ele fedia feito pano de chão guardado na gaveta ainda molhado. Depois de sete dias. O que tornava inviável o consumo.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Dia de reis

A vida é uma coisa bonita, cara. O resto pode ser foda. Mas a vida é, sim, bonita. Mesmo que não caiba tudo. Mas quando eu respirei agora a pouco. Quando eu abri as costelas. Quando eu encostei no rosto com as palmas das mãos. Eu soube, naquele momento, que a vida é, sim, uma coisa bonita.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Fourmis dans les paumes

Quando você vai parar de comer meu coração? Quando você vai parar de comer meu coração infeliz? Quando você pára de arrancar pedacinhos um a um infeliz? Quando você vai parar? Quando você vai parar de comer meu coração, infeliz? Quando você vai parar de comer? Quando você vai? Quando você vai parar de moer meu coração infeliz? Quando você vai parar de roubá-lo? Quando você vai parar de comer meu coração? Quando? Quando você vai deixar de fazer, querido? Quando você vai? Quando você vai? Quando você vai parar de triturar meu peito, infeliz? Quando você vai parar de se alimentar de mim? Quando você vai parar de cortar meus pulsos, quando? Quando você vai parar? Quando você vai deixar de fazer? Quando você vai parar de deixar de fazer? Quando você vai? Quando vai parar de mastigar a minha alegria? Quando vai devolver a mim os meus sonhos digeridos? Quando vai? Quando vai deixar de fazer inferno? Quando vai deixar de fazer-me infeliz? Quando vai deixar de fazer? Quando vai parar de fumar meus cabelos? Quando vai deixar de cuspir na minha sopa? Quando vai parar de bater nas minhas coxas? Quando vai deixar meu coração? Quando vai deixar que eu vá? Quando você vai deixar de fazer querido? Quando vai infeliz? Quando vai? Quando você vai parar de cortar meus pulsos, quando? Quando você vai parar de tomar o meu vinho? Quando você vai parar de se alimentar de mim? Quando você vai parar de beber meu sangue? Quando você vai parar de comer, meu coração? Quando você vai parar de comer meu coração infeliz? Quando você vai parar de fuzilar os meus rins? Quando você vai parar de comer? Quando vai parar de mastigar a minha alegria? Quando você vai? Quando você vai? Quando você vai partir? Quando vai deixar meu coração? Quando vai deixar que eu vá? Quando? Quando vai deixar eu ir coração? Quando vai deixar de deixar de arrancar pedacinhos do meu peito? Quando você vai? Quando você vai parar de triturar meu peito, infeliz? Quando vai deixar de mijar na minha sopa? Quando vai parar de secar nas minhas coxas? Quando vai parar de dar nos meus cabelos? Quando você vai parar de moer meu coração infeliz? Quando você vai parar de roubá-lo? Quando você vai parar? Quando você vai parar de comer meu coração? Quando você vai parar de comer meu coração, infeliz? Quando você vai parar de comer meu coração? Quando você vai parar de comer meu coração? Quando você vai parar de comer meu coração infeliz? Quando você vai parar de comer meu coração? Quando você vai deixar de fazer querido? Quando você vai parar de deixar de fazer? Quando você vai parar de depilar as minhas nuvens? Quando vai deixar de me fazer, infeliz? Quando você vai parar de arrancar pedacinhos um a um infeliz? Quando você vai parar de roubá-lo? Quando? Quando você vai? Quando você vai parar? Quando você vai deixar de fazer querido? Quando você vai parar de deixar de fazer? Quando vai? Quando vai deixar de fazer inferno? Quando vai devolver a mim os meus sonhos digeridos? Quando vai deixar de fazer-me? Quando vai deixar infeliz? Quando você vai deixar de arrancar pedacinhos um a um infeliz?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Sós

Um de apenas e um de solidão.