quarta-feira, 30 de junho de 2010

Um ou Primeiro ou Primeiro e nós e em mim

(para Felipe Damasceno)

Me e Te – comigo; em mim. E meus olhos brilham no escuro enquanto te sonho com meus braços e cabelos repousados no teu peito.

sábado, 29 de maio de 2010

8'

A verdade é que ele era como a pessoa mais feliz do mundo, nem que por apenas dois minutos – aquele momento.

Saiu assim na rua, daquele jeito, com a cidade aos seus pés. Saiu gargalhando e falando aquelas coisas todas sem sentido que ele costumava falar quando estava sozinho. E pouco importava fazer sentido, porque ele se sentia incrivelmente só e feliz.

As lágrimas chegavam a escorrer pelos seus olhos e a inundar os olhos alheios. Como era bom viver. Como era. Mesmo que em sua cabeça tivesse aquela coisa de estar se sentindo fora do eixo, fora das coisas. Mesmo com aquele sentimento de estar sempre no lugar errado, mesmo com aquela coisa de achar que as pessoas não o queriam ali por perto, mesmo pensando que ele sempre amava mais do que o amavam, mesmo sem saber direito de nada – era bom viver.

Era bom estar vivo. E ele vivia. Vivia tanto que doía no peito. Doía de tanto a vida doer. Doía de tanto beber – e de a vida não conseguir escapar pelo ladrão. Doía porque doía e, assim como o que ele falava, não havia explicação. Porque respirar não é lógico. E viver é o extremo, é o ápice de um pulo extasiado.

Mais dois minutos se passaram. Seus pés pisaram o chão e ele atravessou a Treze de Maio. O asfalto engoliu sua alma e ele sentiu um gosto áspero e escuro na boca. Todo o instante de vida havia escorrido pelos seus braços. E ele se sentia só e infeliz.

As lágrimas chegavam a escorrer pelos seus olhos e a inundar os olhos alheios. Como era viver? Como era? Mesmo que em sua cabeça tivesse aquela coisa de estar se sentindo incrivelmente vivo, ele, por um instante, se perguntou. Porque ele estava tão dentro de si, que mais parecia fora – fora de dentro dele e cada vez mais dentro do mundo. E sentia que era escroto como qualquer outro. E pensava estar no lugar errado.

Essa era a verdade daquela hora, nem que por apenas dois minutos – aquele momento. Estava vivo, até que mais dois se passaram.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Na saída de emergência



Roeram algo dentro do meu peito. Ficou um vazio, um buraco enorme. E nele, eu sinto a falta do peso. Tenho medo de perder tudo. Tenho medo de perder meus amores, tenho medo de perder meus amigos, tenho medo da solidão.

Nos meus olhos, uma voz ecoa longe, como num canto de um pássaro ao último raio do sol. E eu me sinto só. Cada vez mais só. Com algo faltando dentro. A falta de alguma coisa. A falta da parte que me falta. Da parte que eu busco, da parte que eu quero preencher.

Sinto falta dos abraços. Sinto falta das canções. Sinto falta do que não existe e do que não virá. É tudo apenas um oco. Um buraco que meu peito abriga, onde sopra um vento longo e eterno, onde nada lá está.

Às vezes eu me perco por dentro. E fico dias esperando no infinito. Esperando que algo aconteça.

Às vezes eu busco.

Às vezes eu choro.

Às vezes eu me desespero.

Mas eu espero. E busco. E choro. E, de novo, me desespero. Mas espero. Com medo de tudo. Com medo de nunca ter. Com medo da falta. Com medo da vida. Com medo das coisas. Com medo da morte. Mas espero.

E quanto aos abraços, eu espero um de cada um na saída dos fundos. Na saída de emergência. No grito dos meus olhos.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Talvez um Cristo e sua paixão

Um disparo.

E um medo que me atingiu na frente, no peito, bem no meio. Derreti no chão, ali dentro, no ônibus. Me aliei àquele outro corpo, estendido na calçada – a primeira queda de Cristo –, e o sangue vermelho-escuro escorreu quase-preto pro asfalto. E a calçada, as buzinas, um tanto assim de gente. Vozes. Gritos. Pessoas correndo e um agudo no ouvido.

Outro disparo, o segundo.

Um zunido. O céu que se fechava. Uma mulher gritou desesperada e os meus ossos afundaram o piso de lata. Minha cabeça – meu Deus! O meu medo. E os meus olhos viram o abismo e imaginaram a carne fresca estendida. Meu estômago gritou como um raio. Parecia um nó em mim. A vontade de vomitar e um frio que descia pela mão feita em suor. Meus pés dormentes, meu sangue encostado, gelado, sem circular. Meus olhos cerrados. “Ave Maria”, cheio de tudo. Cheio da minha noite sem dormir. Saudade da vida. Saudade de casa. Vontade da cama. De abraçar o meu pai. Vontade assim, de querer continuar. De querer existir. De sumir. De abraçar Cristo, como a mãe de tudo. Como a mãe deles. Ou como o próprio Cristo se abraçaria.

Terceiro, quase um quarto.

Qual idade? Qual signo? Qual porta? Que chave, qual destino? Um número? Mais um, menos um. Mais um, menos vivo. Menos, mais – quem se importa? No meio da Treze de Maio, nove da manhã, um outro assassinado. Mais sangue, mais ossos. Menos Alices, mais medo, mais medo em mim. Mais medo. Mais medo de me arriscar. O medo de parir. Medo de pôr gente no mundo. E da desgraça de um possível adeus.

Um último.

E os dois ladrões crucificados. O ônibus dobrou na esquina. Continuei deitado. O corpo estava lá, morto, no meio de tudo, com quatro balas na cabeça. A mulher falava histericamente, sem parar. Meu vidro resistiu. Minha cabeça ali, meu corpo inteiro. Meu sonho de vitória. A morte do outro. Uma escapatória. Pensei em tanto. Não pensei nada. Respirei. Senti que estava vivo. Senti. Meu Deus – Deus. Três pensamentos repentinos. Esqueci tudo. Um piano. Uma lágrima. A garganta seca. Meu Deus – eu. Ele, quem é? O que foi feito de tudo? Qual sangue alimentou a calçada? Sangue. Divino. Impuro. Era noite no Japão. O mistério pousou sobre a vida. Não pensei. Pensei. Soltei o ar com a graça de dizer que eu vivo. Como Cristo. Como ele. Como um. Foi. Então. Um anticristo. Um ladrão. Americano. Brasileiro. Comum. 2004010115018. Que vive e morre. “Agora e na hora da nossa morte”. Viveu. Que foi e que é. Que permaneceu. E adormeceu no seu último suspiro – num parto, num dia. Num último dia. Num grito de Deus.

domingo, 14 de março de 2010

Re

Outra vez. Pra não “ser somente”, mas pra ser. Pra que não seja apenas feito, mas pra que eu seja de novo, eu digo.

Digo: outra vez. Outra vez, pra que seja.

Digo: outra vez. Mais uma vez.

Digo: outra vez. Outra vez, pra que seja mais uma outra vez, pra que eu não desista.

Digo como digo: outra vez.

Outra vez. Pra não ser uma última.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Primeira fragilidade

Quando grito, quando bato, quando choro e não me engasgo, eu me descubro e descubro-me para o mundo. Tomo conta de mim e me deixo ser tomado de conta. E descubro, mais uma vez, que minha instabilidade é minha cura, porque, quando explodo, dou meu lixo aos ratos e me torno cada vez mais limpo. E me torno mais forte – mais do que me vejo fraco. Porque é quando eu não peço desculpa que eu me vejo assim: perfeito, dentro do meu defeituoso círculo de imperfeições.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Àquele

Como música por baixo da porta, como um sinal, uma esperança, eu te espero aqui, ansiosamente, do outro lado, com a boca sufocada no travesseiro.

Eu te espero com o tempo. Eu te espero nas minhas fronhas. Eu te espero como um destino que, ao certo ou ao acaso, foi traçado. Te espero através dos dias, aqueles que te desenharam nos meus olhos. Te espero na minha boca. Te espero através do teu nome escrito na minha língua, pra que eu possa te pronunciar quando o sol vai dormir e meu quarto vira uma caixa de cimento frio.

Todos os dias eu te respiro. Todos os dias, desde que os meus pensamentos te inventaram, eu te espero. Eu espero assim, sem certeza – com a certeza de que um dia você chega.